Castigo à esperança; artigo do médico Tiago A. Fonseca Nunes

04 de dez de 2018 às 09:21 | em: Saúde

Foto: Ilustração

Cento e vinte dias. Pode até parecer pouco para quem aguarda o dia do casamento, a viagem programada ou o dia da formatura. Contudo, para quem espera pelo tratamento de câncer é uma eternidade. No Brasil, em média, pacientes diagnosticados com câncer de mama, através do sistema público, precisam de todo esse tempo para conseguir iniciar a quimioterapia, por exemplo.

Tristemente, cerca da metade dos pacientes recebem a confirmação de câncer de mama em estágios já avançados. Associa-se a isso o fato de que 40% espera até um ano para obter o diagnóstico, de acordo com dados do TCU (Tribunal de Contas da União). Havendo a necessidade de cirurgia, a angústia da espera chega a oito meses, desde que não ocorra cancelamento nesse intervalo.

A lei 12.732/2012 preconiza que o paciente com neoplasia maligna – câncer – tem direito de se submeter ao tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS) no prazo de até 60 dias, contado desde o diagnóstico. Porém, dados do Sistema de Informações do Câncer (Siscan) evidencia que apenas 26,6% do total registrado em 2015 iniciaram tratamento dentro do prazo determinado. No imbróglio da morosidade, encontram-se ainda pacientes que não têm um minuto sequer a perder.

Centros de referência para o estudo e tratamento da doença no país vivem uma triste realidade, onde problemas estruturais atingem diretamente os pacientes que usam seus serviços. Filas quilométricas para atendimento, macas improvisadas, deficiência nos suprimentos hospitalares e até mesmo falta de manutenção. Atente-se ao fato de que estamos falando diretamente de serviços referência nacionais em oncologia.

Desse modo, temos a oportunidade de fazer uma reflexão de como andam os demais Brasil afora. Infelizmente, ao passo que o número de leitos destinados a esses pacientes segue limitado, com crescimento pífio, o número de diagnosticados cresce exponencialmente.

A rapidez na detecção e no tratamento do câncer é decisiva para a cura do paciente. À medida que o tempo avança, reduzem-se as chances e, por isso, não estamos diante de uma discussão banal. Uma regulação mais eficiente, pela qual disponha de dados precisos quanto ao estágio da doença, e ampliação dos serviços oncológicos, gerando descentralização, são alguns exemplos de como ajustar a realidade ao que é tido como ideal.

Assim, a otimização melhora o planejamento, promove um gerenciamento eficaz dos gastos públicos e, principalmente, gera menor tempo para o início do tratamento. O câncer não espera! Tampouco aceita medidas casuísticas para resolver o problema. A responsabilidade sobrecai a toda a sociedade. Enfim, o tempo tem duas caras: se bem aproveitado, é um grande aliado; mas do contrário, é um grande inimigo.

Tiago A. Fonseca Nunes

 Médico e escritor

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