Felipe Sales

Sua curiosidade não pode ser maior que a segurança alheia; mantenha sigilo no whatsapp

15 de nov de 2017 às 11:59 | em: Felipe Sales

Foto: Ilustração

Diversas são as manifestações de leitores que enviam textos de ocorrências policiais ou denúncias políticas ao site A Voz do Campo. Muitas delas sempre são finalizadas com “prefiro que meu nome e minha foto não sejam reveladas“. A Voz do Campo mantém sigilo por respeito às pessoas (a quem fornece a notícia e a quem tem interesse de saber). O que mais importa para uma sociedade: a informação ou o nome/foto da pessoa?

Análise:

Uma mulher é assaltada. Ela faz a denúncia para alertar a todos para que não passem pela mesma situação. A foto dela precisa ser exposta? Expor a imagem dessa pessoa, já fragilizada, é gerar mais medo nela e consequentemente na população. O que a sociedade ganha com isso? Ganha pessoas caladas que, com medo da exposição e de todo o transtorno subsequente, não fazem suas denúncias à polícia e à imprensa. Longo prazo, todos seremos mudos por isso. Medo da exposição!
Uma pessoa faz uma denúncia política. Qual o intuito de saber quem a fez? Perseguição.

Que a gente aprenda: a nossa curiosidade não pode ser maior que a segurança/integridade/sigilo alheio, sob pena de passarmos a ser um sociedade calada. O sensacionalismo só trás problema. Que um dia sejamos uma sociedade que vê na notícia e nas informações uma forma de melhorar, não de sanar as meras curiosidades que só nos levarão a um lugar comum de falta empatia. Falta de empatia é uma circunstância onde não compreendemos o outro emocionalmente. É para este lugar comum que estamos caminhando.

Felipe S. Sales
Coordenador de Edição
A Voz do Campo

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Conto de terror: “Dois medrosos valentes na Casa do Vaqueiro no Quererá”

17 de ago de 2017 às 10:11 | em: Araci,Felipe Sales,Tucano

Casa dos Vaqueiros reformada em 1962 | Foto: Felippe Moura

Conto escrito por Felipe S. Sales: “Dois medrosos valentes na Casa do Vaqueiro no Quererá”

“De terror, acovardados, os dois jovenzinhos, coitados, não puderam nem gritar, lamentando tanto azar!”, teriam que dormir logo no Quererá. Infelizes, tiveram que dormir na Casa dos Vaqueiros. Logo naquele lugar, que de assombração só se ouvia falar. Vindos de Nova Soure, tinham andado léguas e léguas a cavalo. Desceram serra e subiram serra. Estavam cansados.

A Casa dos Vaqueiros, que fica lá pras bandas do Quererá, sempre foi o mais temido paradeiro de tropeiros desde o Brasil imperial. Antes da casa recente, lá era uma casa quase caída. O local dava apoio à estrada das boiadas. Ligava o litoral aos sertões sem precisar passar por Feira de Santana. Por ela o matuto ia para Juazeiro, Jacobina (…), todo lugar! Lá passava todo tipo de gente, do bem e do mal. Alma boa e alma ruim. Já dizia o ditado popular: “lá (…), matavam um na segunda e guardavam o outro para a terça”. Ninguém queria parar lá. O areão do tabuleiro cansava o cavalo. A subida e a descida da serra surravam o animal e o vaqueiro. Ao final, todo mundo parava lá para pernoitar. Ainda tinha quem se perdia. Que sina!

Raimundinho, filho de índia casada com homem nobre, tinha virado homem naquele dia. Antenor, de família pobre das bandas de Teofilândia, já era homem há alguns anos. Eles apearam o cavalo naquele lugar e logo as carnes se tremeram. Nenhum era valente! Mas eram corajosos. Ao menos um mostrava coragem para o outro. A noite tinha chegado, o vento assobiava e o frio trincava os dedos (…). Era o Quererá.

Foto: Felippe Moura

Num salto dos olhos; daqueles que não se vê, se ouve, eles avistaram uma boiada correndo pelo pasto. O gado corria mais que onça brava. Na casa, ouviram gritos e sussurros. “Alguém deve estar lá”, murmurou Raimundinho. “É tardinha, ainda deve ter vaqueiro com gado no mato”, afirmou Antenor. Entraram na casa. Era um gato. Uma corrente batia na porta. “Deve ser alguém”. Era um gato. Acovardados, sem gritar, cochilaram. Pensando no aniversário que não comemorou, Raimundinho acordou na madrugada. Precisava tomar água e usar o banheiro no mato de fora. Relutou. Sem escolha, saiu ao vento. Logo ouviu um papoco no curral. O cavalo relinchava. Parecia que tinha uma vaquejada no mato. ‘Ê boiada! Só pode”, pensou. Antenor acordou. “Ouviu isso, Antenor?”. “Tô vendo”. O cavalo aquietou. Uma voz gritava dentro da casa. Tinha alguém chorando. Tinha um bebê também. Não contaram conversa, passaram sebo nas canelas. “Vamos ficara aqui na  estrada. A noite passa logo. Amanhã a gente pega tudo e parte daqui do Quererá”.

Foto: Felippe Moura

O dia raiou com o sol na cabeça dos jovenszinhos. Noite agitada. Estavam cansados e perderam a hora. Eles voltaram à Casa dos Vaqueiros. Não tinha ninguém. Mas parecia que lá tinha havido uma festa. No canto de Antenor, até tinha marca de mijo. Os cavalos estavam com rabo e crinas enroladas. O mato estava baixo. Tinha muito mato retorcido. “Esse lugar é assombrado. É muita pantumia. Até os bichos estão assustados”. Desceram mais a serra e chegaram no Araci. Pararam no seu Zezinho armarinho. Ainda seguiriam para Santaluz. “Era a caipora”, contaram como se fossem valentes. Raimundinho, que já gostava de causos, era o mais eufórico. Com peito estufado, o chicote de couro no pulso, e gesticulando muito, gritava: “A caipora deu um carreiro em riba do carro de boi. Subiu no cavalo de Antenor. Peguei meus patuá e botei ela no seu lugar”. Antenor tomava uma pinga: “pra acalmar o susto!”. Ouvindo, seu Vitô sussurrava de lá: “esses devem ter se cagado lá!”.

Contextualização do Quererá

O Quererá faz divisa politica e administrativa entre as cidades de Araci e Tucano. Geograficamente, a região está situada dentro da Bacia Hidrográfica do Tucano, que é marcada pela Depressão Sertaneja. Na região, há áreas planas formadas por processos erosivos comuns das regiões semiáridas Essas vastas superfícies aplainadas encontram-se pontilhadas por inselbergs (afloramento de rocha) e maciços montanhosos isolados, por vezes, desfeitos em um relevo de morros e serras baixas. A sua vegetação característica é a caatinga, sendo ela uma formação vegetal resistente a grandes períodos de estiagem, mais seca, rala, de porte baixo e de solo pedregoso.

Grutas no Quererá | Foto: Felipe Sales

A pré-história do Quererá é um capítulo à parte. A região é fonte de riquezas peleontológicas. Há achados recentes de animais da megafauna pleistocênica (grandes mamíferos), que viveram no Brasil até os últimos 14 mil anos. Na região existem indícios de comunidades indígenas pré-históricas e de contato. Há um grande potencial e histórico oral para ocupações de sociedades tupiguaranis até o início da colonização europeia no Brasil. O próprio topônimo “Quererá”, apesar de pouco explorado lingusticamente, tem provável origem tupi. Os séculos XVII e XVII foram marcados pelas ocupações de grupos indígenas tapuias na região do Querará. Os índios kiriris, que hoje ocupam o norte da Bahia, eram presença constante na dinâmica cultural local. Estes foram os últimos indígenas a ocupar a região do Sisal, especialmente os tabuleiros e as zonas mais altas. Por causa da Estrada das Boiadas, que ligava o litoral aos sertões (Rio Real a Jacobina) e pesava pela região, a história recente do Quererá é marcada pelo contato entre vaqueiros, tropeiros, indígenas e comerciantes na região. É a consequência destas dinâmicas históricas e desses sujeitos culturais que surgiram as culturas atuais.

Arquivo de noites com amigos no Quererá | Foto: Felipe Sales

Sobre o autor

Felipe S. Sales é Arqueólogo,  Preservador Patrimonial e Gestor Ambiental. É funcionário da Rialma Energia Eólica, Sócio-coordenador na CRN-Bio Consultorias Integradas e um dos proprietários do site A Voz do Campo. O conto aqui apresentado é uma história fictícia e foi produzido a pedido de Felippe Moura, para que o mesmo esteja no seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). É inspirado nas histórias de terror contadas por seus avós, Raimundo Moreira e Antenor Sales.

Raimundo e Antenor | Foto: Felipe Sales

Uma homenagem a vô Antenor e In memoriam de vô Raimundo.

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Rede Globo descarta Temer e emplaca provável nova presidente – Artigo de Felipe Sales

19 de maio de 2017 às 16:08 | em: Felipe Sales

Carmem Lúcia em reunião com empresários | Foto: Ilustração

A Globo continua sua incursão contra Temer em sua programação. Temer merece, mas na Globo, nada é de graça. Sabem quem será a nova Presidente da República?

Dicas:

1) Ela fez reunião recente com o dono do Itaú e os donos da Globo;
2) Ela já se posicionou a favor das reformas trabalhista e previdenciária;
3) Ela “não é política”. Como dizem os “analistas” da Globo, “o substituto de Temer não pode ser parlamentar. Tem que ser da sociedade civil ou do judiciário”.
4) Ela é do judiciário.

É tudo claro no xadrez do poder. “É um acordo nacional até com o judiciário”, disse o senador Romero Jucá. O Jucá só não sabia que seria que o acordo ia mais à frente e o PMDB seria descartado. Meirelles já sabe que vai continuar no Ministério da Fazenda, disse nesta sexta-feira (19). Bonner já chama Temer de ex-presidente em plano Jornal Nacional. Os donos do Brasil armaram tudo. Nós, o povo, estamos no meio do processo. Carmem Lucia é o nome dela. Anotem!

Felipe S. Sales – Arqueólogo e Gestor Ambiental

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Estação Ferroviária de Salgadália; um mergulho na história

27 de abr de 2017 às 15:44 | em: Conceição do Coité,Felipe Sales

Foto de 1950 | Foto: Estações Ferroviárias

A linha que ligou efetivamente a estação de São Francisco, em Alagoinhas, ao rio São Francisco, em Juazeiro, foi aberta entre 1880 e 1896 pelo Governo Brasileiro. Essa era a principal rota de distribuição de produtos e passageiros da região Sisaleira. A Estação de Salgada (Salgadália) foi inaugurada em 1885, segundo o Guia Geral de Ferrovias publicado em 1960. Cyro Deocleciano afirma em seu  livro de 1886 que todo o trecho além da estação de São Francisco estava em construção nessa época, citando no trecho a ser aberto o nome da estação.

Foto: Paulo Roberto Fragoso (2010)

Em 1940, a situação do pátio era bem ruim – e a estação já se chamava Coité: “A estação de Coité é de madeira. O armazém é um carro velho de mercadorias. A casa de turma precisa de reparos gerais“, tem escrito no Boletim da Associação Brasileira de Engenharia Ferroviária. O nome da linha foi alterado para Salgadália nos anos 1940. Em 1943 foi entregue o prédio atual, em alvenaria e bastante simples. O prédio assemelha-se às tipologias construtivas da época.

Imagem da década de 1970 | Foto: Autor desconhecido

A estação fica há 19 quilômetros do centro do município de Conceição do Coité, no Distrito de Salgadália, um importante pólo de produção de sisal da região. A ferrovia foi bastante importante para a economia da região durante décadas, sendo a principal forma de escoar a produção agrícola (sisal, em especial). O prédio, que guarda essa história, hoje está descaracterizado e carece de maior atenção do poder público. A preservação do patrimônio que guarda a história é não só um direito, é um dever do poder público. 

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Maior açude de Araci, o Poço Grande está na iminência de acabar; entenda o porquê

18 de abr de 2017 às 19:40 | em: Felipe Sales

Foto: Google Eath | Imagem de satélite do Riacho Carnaíba. Bancos de areia no Riacho e a inexistência de mata ciliar

Isso não será hoje ou amanhã, mas relógio para acontecer está correndo. Infelizmente. Entenda:

A região do sisal apresenta clima tropical semi-árido. Os índices de chuva variam de 2.000 milímetros (mm) até valores inferiores a 500 mm anuais. É baixo demais. A precipitação média anual é inferior a 1.000 mm. O período chuvoso normalmente dura apenas dois meses no ano, podendo, eventualmente, até não existir (como ocorreu nesses últimos anos). Esses fenômenos causam as tão afamadas “secas sertanejas”. Recentemente, muitas chuvas são torrenciais (fortes) e em eventos específicos. Ou seja, vem a seca prolongada e depois as grandes chuvas. Os resultados são: lamaçais, erosão de solos, derrubada de árvores, entupimento de riachos e etc (…). A seca, por si, justifica a presença de um açude como o Poço Grande na região. A água é e sempre será um bem necessária.
O Poço Grande, que fica localizado na zona rural de Araci, foi inaugurado em 14 de junho 1966, através de uma iniciativa do Governo Federal, por meio do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – DNOCS. Ele têm capacidade de armazenamento de 65.000.000 m³ de água.

Foto: Google Eath | Imagem de satélite do açude com seus afluentes a leste (esquerda)

Ao observar o reservatório atual através de imagens de satélite e programas específicos de geoprocessamento, o resultado é, definitivamente, preocupante. Motivo?
Observa-se a necessidade de que sejam implantadas medidas paliativas iniciais e instauradas ações concretas de manejo e reabilitação da bacia do Poço Grande. Em resumo: está na hora de encarar o problema porque o açude pode acabar. As chuvas e a realidade que se desenha são desoladoras para as características do açude e podem aceleram seu “entupimento” com terra. Simples assim? Explico.
Os principais afluentes que desaguam e alimentam o açude são o Riacho Carnaíba e Pau-a-pique. O açude, por si, morre não fossem eles. O poço grande que vemos é apenas uma área baixa onde foi implantado um barramento de água na década de 1960. É uma equação simples: riachos + áreas baixas + barramento de água = açude.
Esses riachos são calhas de drenagem intermitentes, ou seja, não apresentam lâminas d’água em todos os períodos do ano. Eles não “pegam” água o tempo todo, só quando chove. E onde está o problema?
Um componente fundamental deve ser observado e monitorado para que esses riachos não morram ou gradativamente  possam assorear (entupir) o açude: a mata ciliar. Se são os riachos que abastassem o açude e eles nem sempre estão cheios, é preciso manter preservada a área vegetada que existe no entorno (laterais) do açude. Correto? Isso. Essas são áreas protegidas por leis específicas de preservação ambiental. Elas devem ser preservadas porque se forem desmatadas, os rios ou os riachos acabam.
Com os riachos que alimentam o poço grande as matas ciliares estão desmatadas em diversos pontos. Eles estão levando terra para o açude. Estão desmatando para agricultura e pecuária. A falta de iniciativas de gestão ambiental municipal, do DNOCS e do estado não ensinam o manejo ao povo. Grande parte das vezes, o erro é resultado da desinformação e de ineficiência institucional, não de quem desmata. Como sabemos, o resultado do desmatamento dessas matas é o assoreamento das calhas de drenagem. Essas calhas são os locais onde a água passa, que são sempre mais profundos que o solo da área vegetada. Sem vegetação nas laterais, toda e qualquer chuva forte resulta em terra no talvegue do riacho (parte profunda do meio). Recordando que a região apresenta, comumente, chuvas torrenciais (fortes), é possível calcular, tecnicamente, a dimensão do problema. Em termos de comparação, a falta dessa mata resulta no mesmo problema de andarmos meio a um temporal com os olhos abertos e cílios (dos olhos) cortados. O resultado, logicamente, é terra nos olhos e eventual futura cegueira.

Foto: Atualmente

Portanto, antes que tenhamos que lamentar a futura a provável “cegueira” do açude do Poço Grande, é necessário que, urgentemente, as autoridades políticas e administrativas de Araci e região atenham-se a este problema e implantem um plano de gestão eficiente para o mesmo. Deve-se acionar os órgãos competentes INEMA (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos) e o DNOCS. Devem-se iniciar ações práticas de Educação Ambiental na região. Esse é o paliativo. O resultado efetivo virá com secretaria de meio ambiente (ou semelhante) atuante com uma frente que intercale: fiscalização, articulação política, educação e manejo. A competência no sentido de resolução é (e deverá ser) compartilhada entre todos. Se não houver atenção prévia, dezenas de famílias terão que abandonar suas casas por falta d’água e fonte de renda. Vá ao Poço Grande e percorram os riachos que o alimentam. Vocês poderão ver sobre o que eu escrevi. O poço grande está sendo enterrado porque não há mata ciliar em seus riachos e está na iminência de acabar. Não é um alarde, é uma previsão técnica.

Felipe Silva Sales – Arqueólogo e Preservador Patrimonial | MBA em Gestão Ambiental | CRN-Bio Consultoria Sócioambiental

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A história de Araci é mais complexa do que pensamos; entenda

04 de abr de 2017 às 15:39 | em: Felipe Sales

Vaqueiros na praça da Conceição | Fonte: Aguida Ferreira de Santana

Pouco se aprofundou sobre a história de Araci. Portanto, já paramos para refletir que a nossa história é mais complexa do que aquela tradicionalmente apresentada? Provavelmente, não; a contar pelo que é estudado nos currículos escolares e pelo que se lê nos textos oficiais.  Aprendemos que a história da cidade se inicia com o afamado, eminente e vertiginoso Capitão José Ferreira de Carvalho, que, no ano de 1812, fundou sua Fazenda no entorno do Tanque da Nação e lá residiu. Entre tropeços e perrengues, sucessos e insucessos, a fazenda cresceu e tornou-se a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Raso. Com emancipação decisiva em 1956, Araci é uma cidade jovem e carente por sua história. Com exceção de estudos e trabalhos louváveis, como o da professora Ana Nery Carvalho (2014), e clássicos, como o livro de Mota Carvalho Lima (1985), pouco se explorou nossa história. Igualmente, quando explorada, a história tem a chegada do Capitão como inicio e não avança a aspectos antropológicos dos processos. Discorre-se sobre os processos administrativos ou sobre as personalidades familiares. Mas a história é maior que isso. Já paramos para pensar o porquê do nome do Tapuio? Já refletimos sobre o Quererá? E o nome “Araci”? Ambos são tem topônimos de origem indígena, do tronco linguístico tupi. Os tapuias eram os grupos não tupis. Traduzindo; eram os “bárbaros”. Araci, ou a’ra sü, também em tupi, é Mãe do Dia, Aurora ou a Luz do Dia. E Quererá? A dúvida me surge. Seria uma variação do verbo “querer”? Seria esse verbo no futuro do presente simples ou mais um topônimo de origem indígena? A entonação é forte à moda indígena. Mais que isso, basta conversar com os mais velhos e ouvir: “aqui era terra de índio”. A história cultural das tribos pré-coloniais está repleta de relatos assim: os tupinambás optavam por terras altas, planas, frias e próximas a fontes d’água. Essa não seria uma descrição do Quererá? A bica, como dizem, foi descoberta por índios.

Primeira Igreja de Araci, construida em 1859 e demolida em 1959 | Fotos Antigas de Araci

Diante disso, refletimos: então, a história de Araci é maior (…). Tivemos índios antes da chegada do eminente Capitão! Só isso? Certamente, não!
Araci não é uma terra de pessoas predominantemente brancas ou pardas. Há negros, muitos negros. A belíssima cultura africana também é muito viva na cidade e seus traços também. Basta recuarmos às informações da presença de escravos na fazenda de José Ferreira. É por todos esses aspectos que devemos refletir: enquanto Aracienses; quem somos? Certamente a consequência da mistura de toda essa complexidade biológica e, principalmente, cultural. A pluralidade nos define e nos caracteriza. A história desse dinâmico processo do que hoje vem a ser Araci precisa ser, cada vez mais, explorada. Por isso, convido os jovens de Araci a refletir sobre o tema e, para aqueles que fazem cursos superiores de História, Geografia, Arqueologia, Antropologia e afins, os instigo a pensar nossa cidade com um olhar mais profundo e completo. A cidade ainda não está inserida no ciclo do desenvolvimento de grandes projetos infraestrutura. Executei e coordenei dezenas de serviços no licenciamento ambiental e cultural. Vi, em muitos casos, pesquisadores sem nenhuma identidade local escrever sobre a história de cidades, com resultados risíveis, pois não havia interesse dos estudiosos ou moradores locais. Não havia bases contextuais pré-estabelecidas. A pouca profundidade das produções e o consequente baixo aproveitamento histórico cultural é muito comum. Ao trabalharmos esses temas na UEFS, FTC, UFBA ou UNOPAR, mesmo que de forma incipiente; estaremos prontos para quando a região receber os famosos Parques Eólicos, as Linhas de Transmissão ou demais obras estruturantes. Já teremos um arcabouço estabelecido para dizer: em nossa cidade já existimos e os estudos de licenciamento podem (e devem) ser produzidos com qualidade e com nossa participação. Os valores são altos e os resultados nem sempre são compatíveis. Acordarmos para essa realidade é um passo necessário.

Felipe Silva Sales – Arqueólogo e Preservador Patrimonial | MBA em Gestão Ambiental

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A história de Araci é mais complexa do que pensamos; entenda

05 de mar de 2017 às 11:13 | em: Felipe Sales
Vaqueiros na praça da Conceição | Fonte: Aguida Ferreira de Santana

Vaqueiros na praça da Conceição | Fonte: Aguida Ferreira de Santana

Pouco se aprofundou sobre a história de Araci. Portanto, já paramos para refletir que a nossa história é mais complexa do que aquela tradicionalmente apresentada? Provavelmente, não; a contar pelo que é estudado nos currículos escolares e pelo que se lê nos textos oficiais.  Aprendemos que a história da cidade se inicia com o afamado, eminente e vertiginoso Capitão José Ferreira de Carvalho, que, no ano de 1812, fundou sua Fazenda no entorno do Tanque da Nação e lá residiu. Entre tropeços e perrengues, sucessos e insucessos, a fazenda cresceu e tornou-se a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Raso. Com emancipação decisiva em 1956, Araci é uma cidade jovem e carente por sua história. Com exceção de estudos e trabalhos louváveis, como o da professora Ana Nery Carvalho (2014), e clássicos, como o livro de Mota Carvalho Lima (1985), pouco se explorou nossa história. Igualmente, quando explorada, a história tem a chegada do Capitão como inicio e não avança a aspectos antropológicos dos processos. Discorre-se sobre os processos administrativos ou sobre as personalidades familiares. Mas a história é maior que isso. Já paramos para pensar o porquê do nome do Tapuio? Já refletimos sobre o Quererá? E o nome “Araci”? Ambos são tem topônimos de origem indígena, do tronco linguístico tupi. Os tapuias eram os grupos não tupis. Traduzindo; eram os “bárbaros”. Araci, ou a’ra sü, também em tupi, é Mãe do Dia, Aurora ou a Luz do Dia. E Quererá? A dúvida me surge. Seria uma variação do verbo “querer”? Seria esse verbo no futuro do presente simples ou mais um topônimo de origem indígena? A entonação é forte à moda indígena. Mais que isso, basta conversar com os mais velhos e ouvir: “aqui era terra de índio”. A história cultural das tribos pré-coloniais está repleta de relatos assim: os tupinambás optavam por terras altas, planas, frias e próximas a fontes d’água. Essa não seria uma descrição do Quererá? A bica, como dizem, foi descoberta por índios.

Primeira Igreja de Araci, construida em 1859 e demolida em 1959 | Fotos Antigas de Araci

Primeira Igreja de Araci, construida em 1859 e demolida em 1959 | Fotos Antigas de Araci

Diante disso, refletimos: então, a história de Araci é maior (…). Tivemos índios antes da chegada do eminente Capitão! Só isso? Certamente, não!
Araci não é uma terra de pessoas predominantemente brancas ou pardas. Há negros, muitos negros. A belíssima cultura africana também é muito viva na cidade e seus traços também. Basta recuarmos às informações da presença de escravos na fazenda de José Ferreira. É por todos esses aspectos que devemos refletir: enquanto Aracienses; quem somos? Certamente a consequência da mistura de toda essa complexidade biológica e, principalmente, cultural. A pluralidade nos define e nos caracteriza. A história desse dinâmico processo do que hoje vem a ser Araci precisa ser, cada vez mais, explorada. Por isso, convido os jovens de Araci a refletir sobre o tema e, para aqueles que fazem cursos superiores de História, Geografia, Arqueologia, Antropologia e afins, os instigo a pensar nossa cidade com um olhar mais profundo e completo. A cidade ainda não está inserida no ciclo do desenvolvimento de grandes projetos infraestrutura. Executei e coordenei dezenas de serviços no licenciamento ambiental e cultural. Vi, em muitos casos, pesquisadores sem nenhuma identidade local escrever sobre a história de cidades, com resultados risíveis, pois não havia interesse dos estudiosos ou moradores locais. Não havia bases contextuais pré-estabelecidas. A pouca profundidade das produções e o consequente baixo aproveitamento histórico cultural é muito comum. Ao trabalharmos esses temas na UEFS, FTC, UFBA ou UNOPAR, mesmo que de forma incipiente; estaremos prontos para quando a região receber os famosos Parques Eólicos, as Linhas de Transmissão ou demais obras estruturantes. Já teremos um arcabouço estabelecido para dizer: em nossa cidade já existimos e os estudos de licenciamento podem (e devem) ser produzidos com qualidade e com nossa participação. Os valores são altos e os resultados nem sempre são compatíveis. Acordarmos para essa realidade é um passo necessário.

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