Os heróis de fundo sujo

07 de set de 2017 às 12:05 | em: Astério Moreira

“Brava gente brasileira! Longe vá, temor servil!”

(Hino da Independência – D.Pedro I e Evaristo da Veiga)

 

Quando Dom Pedro, em 7 de setembro de 1822, brandiu sua espada e, às margens de um rio, gritou “Independência ou Morte!”, acho que jamais imaginaria o rebuliço que viria a ser o país que acabara de fundar de improviso ali no meio do nada, mas seu intestino sabia muito bem! Reza a lenda que o emissário real, quando foi levar a carta em que a corte portuguesa exigia a volta do príncipe para Lisboa, encontrou o regente parado com sua comitiva na beira do rio Ipiranga, em São Paulo, passando muito mal, o nobre sofria de uma diarreia que o conteve no meio do caminho – Talvez prenúncio diarreico daquilo que este latino país viria a ser. Tornamo-nos independentes naquele momento não por coragem ou valentia, mas por ego ferido do príncipe que se acostumou a ser o grande soberano e não estava com disposição de perder cetro e coroa. Na covardia, ainda pagamos a Portugal um indenização gorda pelas mãos da Inglaterra, 2 milhões de libras esterlinas, não bastasse o que foi arrancado do solo nacional durante mais de 200 anos de colonização lusa. Assim, se venera um herói torto, nosso Dom Pedro I que deixou o país anos depois para intervir na corte portuguesa em favor de sua filha que sofria um golpe de seu irmão e genro Dom Miguel, deixando para trás o país que fundara em meio a uma caganeira sendo governado por um menino de 5 anos de idade, seu filho, D. Pedro II.

 

Não dá para levar muito a sério a política de um lugar que se emancipou de improviso no meio de uma violenta crise intestinal. Dom Pedro brandia o gládio soberano contra o despotismo português e seu intestino rugia alto anunciando nosso destino político. Assim, criamos o eterno mito do grande herói que nos salva da opressão, aquele que em tom altivo virá nos reger e salvar da desgraça imposta pelas circunstâncias opressoras de tiranos senhores, mas esquecemos de um ponto importante – me perdoem o termo -, heróis também fazem cagadas e feias cagadas. Quem tem o poder nas mãos tende a abusar dele seja por falta de caráter ou por megalomania. Quem rege tem que ter por hábito a expropriação diária do poder. Mentalmente dizer aquela frase “Só tenho porque me deram” e internalizar isto feito mantra repetido. Veja que simbólico presente recebemos um dia antes do 195º aniversário da independência do país, a polícia federal encontra em um apartamento numa área de luxo da capital baiana malas e caixas de dinheiro que pertencem a um ex-ministro já preso. Quando li a matéria que tratava do tema soou na minha mente o jingle que o ex-ministro usou na campanha para o senado “um homem forte no cenário nacional…”. De fato!

 

Bertold Brecht já dizia sabiamente “Infeliz da nação que precisa de heróis”. Não dá para esperar por uma salvação, não adianta acreditar num redentor, é preciso protagonizar é isto que o teatrólogo quer nos dizer. A política do “faz por mim” não tem dado muito certo, não é mesmo? O ex-ministro dá prova disto! Este governo federal fajuto é prova disto! O Brasil se desespera por um herói porque não sabe que pode se salvar. E eu acredito que esta seja a redenção final e plena. Escravizam-nos porque solaparam nossa inteligência, nos arrancando instrução e abusando da nossa necessidade – e isto é tão vil! Mais do que nunca, “é preciso estar atento e forte”, para muito além de nossa mesquinhez quadrienal, das nossas paixões medíocres que nos fanatizam de quatro em quatro anos.

 

O professor Darcy Ribeiro diz a coisa mais certa que já li sobre este país, nós somos “uma morena humanidade em flor à espera do seu destino. Claro destino, singelo, de simplesmente ser entre os povos e de existir para si mesmos…”. Nós ainda não existimos para nós mesmos e continuaremos assim enquanto esperarmos um redentor. É preciso ser crítico e agente político, é preciso assumir o papel na ópera que se encena. Não dá mais para acreditar em um Dom Pedro que agita a espada sobre um cavalo enquanto toda merda continua sendo feita.

 

Feliz aniversário, meus irmãos.

 

Clique aqui para seguir nossa página no Facebook.