Em defesa de Cristo – artigo de Astério Moreira

20 de set de 2017 às 22:50 | em: Astério Moreira

O Beijo de Judas – Giotto Di Bondone (1304)

“Meu amigo, volte logo, venha ensinar meu povo que o amor é importante, vem dizer tudo de novo” 

(Todos Estão Surdos – R. Carlos)

No céu…

Entre nuvens brancas imaculadas, cercado por querubins, serafins e arcanjos, o Espírito Santo empoleira-se arrulhando no ombro do Cristo que olhando para baixo de boca aberta diz para Javé solenemente “Meu pai, deu merda!”. Javé bocejando com sua voz trovejante pergunta “O que houve, meu filho?”. Apontando para a terra o Salvador diz “Olha ali para baixo! Ô gente burra. Entendem nada! A gente desce na maior boa vontade do mundo, conversa, dialoga, dá o exemplo, prega contra as tiranias, fala de caridade, manda todo mundo se amar e o que é que eles fazem? O contrário! Foi o mesmo que não ter dito! Ahh tenha a santa paciência!”. Javé coçando a barba diz “É… Tá puxado. O que é que eu fiz de errado, hein?!”. “O Senhor quer saber mesmo, meu pai? O erro foi criar a humanidade! Ô pirão perdido!”.

E no Brasil…

Entre um governo corrupto e ilegítimo sob o qual vive uma massa que nada faz a não ser olhar de boca escancarada e coçando os testículos o horror de um desavergonhado e patético teatro político. O noticiário semanal espoca em falsa cristandade hipócrita: 08/09/17 – Traficantes cariocas obrigam Mãe de Santo a destruir o próprio terreiro em Nova Iguaçu; 13/09/17 – Santander encerra exposição “Queermuseu” sobre questão de gênero e sexualidade por pressão de grupos religiosos e do MBL; 16/09/2017 – Juiz determina suspensão de peça teatral encenada por atriz transexual que atuava no papel de Cristo; 18/09/17 – Juiz libera tratamento psicológico para reversão sexual. Tudo em nome da moral, dos bons costumes, da família tradicional e da fé cristã. Há algo de podre no reino tupiniquim, não? Algo que cheira a enxofre.

Sempre acreditei que muita gente ao tentar servir a Deus (cegamente), acaba agradando o capiroto. Há uma musica do Padre Zezinho (conservador extremado, mas não burro) que desde menino ouço e fala claramente sobre isto “Em meu país cristão, às vezes muita gente não crê no que acredita e afasta o seu irmão da religião” e o que deveria agregar serve para dispersar. Se houver o mínimo pensamento crítico e analítico sobre o que é Cristo e sobre o que é o Cristianismo, há de se descobrir muita diferença. Não confundamos chamando Jesus de Genésio. Vejamos o Cristo humano: o revolucionário nazareno que marcou seu tempo e até hoje é lembrado, fez diferença no mundo porque foi o primeiro grande homem a revoltar-se e a promover a revolta contra um sistema extremamente opressor (a tirania do Império de Roma e a hipocrisia do Judaísmo arcaico) sem ódios, sem armas e sem guerras. O grande estouro de ideia de Cristo foi simplesmente pregar e dizer “amem-se”. Emanuel só veio ao mundo dizer isto dando prova de sua ideologia e já foi o suficiente para comover civilizações e transpor eras. O problema é o que fizeram daquilo que Cristo disse. De um cerne de amor tão simples, de uma doutrina tão pura onde o núcleo é só amar, agregaram centenas e milhares de doutrinas, dogmas, postulados, leis e tratados. E o Amor de Cristo que era o centro da crença em Cristo foi contaminado pelo terror/temor de Cristo que Ele nunca pregou. De toda doutrina Cristã (e não da doutrina amorosa de Cristo) nasceu toda ideia de bom costume, de boa educação, de tradição e de moral que impera hoje no ocidente. E aí, reside o erro.

Cristo não foi um moralista e isto se prova pelos próprios relatos que restaram sobre Ele (não contemporâneos a Ele e modificados pelo tempo), Emanuel fez seu dito primeiro milagre em meio a uma festa (transformando água em vinho!), andava com cobradores de impostos (corruptos da época), prostitutas e adúlteros, isto é, a escória da civilização da Judeia, os mal vistos. Cristo só acolheu. O único ato de uso de força que tenho lembrança que Jesus cometeu foi contra os vendilhões do templo, não porque considerasse o que eles estavam fazendo uma afronta a sua crença, mas por achar abusivo que a fizessem uma mercadoria como muito se faz ultimamente (“A casa de Meu Pai não é uma casa de comércio!”).

Perseguir a cultura afro-brasileira não é demonstração de fé em Cristo, é racismo; censurar manifestações artísticas sob a égide da moralidade tentando disfarçar o combate à diversidade sexual não é demonstração da fé em Cristo, é caretice homofóbica! O problema do Cristianismo é um problema presente em tantas outras instituições religiosas ou não, é o mau uso do poder. E o mau uso do poder na religião é ainda mais preocupante porque é totalmente alienante e tem força avassaladora. A força da palavra de um padre, de um pastor ou de um líder religioso outro ainda tem força de lei, de norma interiorizada no fiel justamente porque supostamente saiu da boca de um deus. E a verdade é que os pregadores pregam mais a si do que a Cristo.

Censurar, proibir, destruir e perseguir as manifestações artísticas e religiosas de um grupo pelo fato dela ser afrontosa ao Cristianismo tem base, mas por ser contrária a Cristo, não encontra qualquer escora! Não me ofertem o Velho Testamento como fundamento, Emanuel veio para rompê-lo. “O fim da Lei é Cristo” disse São Paulo (a quem eu tenho certas desconfianças)!  Impor ou cobrar censura daquilo que foge dos ditames do Cristianismo não é propagar e fazer respeitar a fé em Cristo! Não coloquem o nome d’Ele nisto por favor, Ele não mandou calar e perseguir ninguém. Ele é muito mais bonito do que aquilo que se acredita que Ele é. Gastemos nossa indignação com aquilo que merece ser visto como abuso e afronta. E Como diria o Padre Zezinho, lavemos o nosso “preconceito de Cristão…” porque é preciso sempre lembrar deste mote “…sei que da verdade não sou dono, eu sei que não sei tudo sobre Deus. Às vezes quem duvida e faz perguntas é muito mais honesto do que eu!”.

E No céu…

Cristo disse “Pai, acho que tá na hora de descer de novo!” e Javé respondeu “Vá com Deus!”.

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