Ao Professor

08 de nov de 2017 às 23:30 | em: Astério Moreira

Quando soube da notícia pela tarde, levei com desconfiança o aviso – Tucano tem o péssimo hábito de finar e aleijar as vítimas antes do tempo e as redes sociais facilitam esta prática descuidada. Mas, infelizmente a notícia era verdadeira, o professor Rubens Rocha tinha ido embora na tarde de uma quarta-feira. Dia comum entre dias comuns, passagem sem alardes. Fiquei sentido com o acontecido. O professor em questão nunca lecionou nada para mim na frente de uma lousa, mas tinha o hábito de chama-lo assim só pela importância que tinha por ter me ensinado tanta coisa sobre o lugar onde nasci e, aquilo que não me ensinou, de algum modo, me incitou a descobrir.

Pelo que sei, o Rubens foi o primeiro interessado em fazer registro daquilo que ninguém tinha interesse: a história de um lugar sem história – Tucano. E isto já diz muito sobre ele. Não só escreveu como filmou, falou, promoveu e divulgou boa parte do que Tucano é em historicidade e cultura. Qualquer estudante que um dia se viu obrigado a pesquisar sobre a Imperial Vila de Sant’Anna e Santo Antônio dos Tocanos recaiu no famoso livro “História de Tucano” de 1976. Ele era sinônimo da história de um vilarejo velho que pouco sabe de si. Certa vez, me ligou entusiasmado, estava escrevendo um livro (o último) e queria que eu prefaciasse – “Olhe, eu leio o que você escreve e gosto muito” me disse com toda aquela dicção própria dele entre cortes de respiração profunda –, falei que eu não era nada, que não era historiador, que não tinha motivo para a escolha e ele disse certeiro e absoluto “Eu quero!”. Não tive como escapar. Escrevi. E fico muito feliz de ter podido escrever, porque pude agradecer a ele em vida por todo conhecimento dado e incitado.

Uma das últimas oportunidades em que estive com ele, foi justamente no lançamento do seu último livro, onde ele abriu o berro e reclamou com toda sua autoridade de velho senhor que a idade concede. Falou contra os poderes do município que nunca tiveram a decência de estar presente em um lançamento de livro seu, parecia bobagem, mero capricho do velho professor, mas percebi que não era. Ali, a revolta pessoal era um desabafo contra o descaso político com a cultura e história do município durante anos.  Ele tinha/tem razão. Nenhuma autoridade teve a consideração de olhar com atenção a cultura municipal que ele olhou com tanto cuidado e importância.

O professor se foi. A ele, meu agradecimento em nome desta gente que aprendeu um pouco mais sobre si através dele. À Dona Norma e a seus filhos, meus sinceros sentimentos. A Tucano, minhas condolências.

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