Astério Moreira

A República Bananística do Brasil

11 de jun de 2017 às 14:23 | em: Astério Moreira

Paulo Gracindo como Odorico Paraguaçu em O Bem Amado de Dias Gomes

 

Isto deve ser obra da esquerda comunista, marronzista e badernenta” – (Odorico Paraguaçu, O Bem Amado – D.Gomes)

Quando você lê a seguinte mensagem escrita por um representante político local: “A volta da Ditadura da Democracia Aristocrática”, o que acontece com você? Eu rio!

Rio e rio muito, eu chego até a gargalhar, sinto até aquele orgulhozinho do folclore político de cidadezinha do interior, me sinto até personagem de uma trama escrita por Dias Gomes, Garcia Marques ou Jorge Amado, porque só mesmo uma mente tão “esquizofrenicamente faraônica” como a de um Odorico Paraguaçu seria capaz de formular um termo deste naipe. Expressão fina da prosa política regionalista caatingueira, coisa rara nos tempos de hoje em que prefeitos e vereadores perderam o gosto da oratória apoteótica empostando-se sobre os palanques e púlpitos! Joia rara do discurso político interiorano! Convenhamos, expressão assim é pérola preciosa que merce cuidado e exibição! Não minto, gostei e gostei muito!

Este discurso foi feito em resposta a uma matéria sobre a permanência do (FORA!) Temer na presidência da República. Mas, além de me fazer rir, me fez pensar. Pensei e dou toda a razão para esta denúncia feita pela expressão dita. Nós de fato vivemos em uma Ditadura da Democracia Aristocrática! A mensagem só erra em uma coisa: não é o retorno, não há volta, porque simplesmente ela desde sempre está estabelecida! Nós estamos em um país onde reina um autoritarismo de caráter elitista disfarçado de democracia, esta é a República Federativa do Brasil com seu capuz de Estado Democrático de Direito! Um título tão belo para encobrir tanta feiura.

Nós, desde a monarquia, estamos em um país dominado pela voz grossa e potente de quem tem os eleitos na mão, gente que dita lei sem ser legislador, gente que julga sem ter toga, gente que é Chefe de Estado sem nunca ter posto uma faixa no peito, gente de dinheiro que por dinheiro e para o dinheiro vive e se retroalimenta. Se isto não for uma ditadura aristocrática eu não sei o que é! Mas como é feio e politicamente incorreto transparecer tanto elitismo autoritário em pleno século XXI, o que se faz para não dar tanto na vista do povo? Ah.. sim! Tome lá uma grossa camada de democracia aparente estabelecida por lei para a garantia que nada garante! Pronto! Está feito o Brasil!

Portanto, o governo atual e a conjuntura política de hoje não é um retorno, é o que está posto. O que diferencia o que estava do que está é o descaramento, é o desavergonhamento, a política nacional perdeu até mesmo o pudor de transparecer o que é. Nós somos sim uma Ditadura da Democracia Aristocrática e estamos a um passo de sermos mais. Aliás, arrisco e afirmo que somos uma Ditadura da Democracia Aristocrática Neoliberal pseudoláica Fascista! Tenho dito!

Astério Moreira.

Santo Antônio das Queimadas

03 de maio de 2017 às 21:45 | em: Astério Moreira

 

“Que seria de mim, meu Deus, sem a fé em Antônio?” (Santo Antônio – J. Velloso)

A você que me lê, deixo esta transcrição ipsis litteris de uma carta avulsa encontrada dentro de um dos livros de batistério da igreja matriz de Sant’Ana do Tucano, uma carta endereçada ao vigário, onde se narra a desventura surreal do padroeiro de Queimadas, o Santo Antônio.

 

Fotografia: Carta

 

Vossa Reverendíssima, senhor vigário da parochia da Imperial Villa de Sant’ Anna e Santo Antônio dos Tocanos,

 

Santo Antônio das Queimadas, 30 de julho de 1827

 

Saúde, paz e tranquilidade desejo-vos. Escrevo esta missiva a Vossa Reverendíssima para vos narrar o que tem sucedido nos arredores desta humilde capella de Santo Antônio das Queimadas e que por obra e graça de Deus está sujeita ao patronato de vossa parochia em Tocano. É preciso que saibais por fonte fiel o que é de vosso interesse, ou melhor, o que é de interesse de vossa parochia. Tentarei ser breve, mas a narrativa há de ser um tanto longa, pois minha preocupação é demasiada e me vejo na obrigação de vos contar os pormenores de todo o acontecido.

Bem sabeis, Vossa Reverendíssima, que estas terras estão oficialmente sob a divina proteção de nosso bom português Santo Antônio de Lisboa desde o anno da graça de 1815, quando foi erguida esta definitiva capella em sua honra. Talvez não saibais, porém, que estas terras têm uma forte ligação com este grande santo lusitano. Existe certa estória que reforça o que vos digo e da qual não duvido, pois a providência divina bem sabe mandar seus sinaes. Conta-se que a imagem do padroeiro, boa e bela peça em madeira, foi encontrada por D. Isabel Maria Guedes de Brito, a senhora destas terras, filha da Casa da Ponte, ao pé de uma grande árvore. Piedosamente, a senhora mui católica e fervorosa levou a imagem para si e a entronou em um nicho em sua residência na sede da fazenda As Queimadas, porém a imagem sumiu e foi encontrada no mesmo lugar em que aparecera, tendo sido novamente levada para a casa da devota senhora e tendo desparecido em seguida. Tantas vezes fosse ella reconduzida, tantas vezes tornaria a voltar. O milagroso santo era resgatado e desparecia para tornar a aparecer sempre debaixo da mesma árvore. D. Isabel interpretou isto como um sinal, mandando construir no lugar que o santo queria uma pequena capella, a primeira e mais velha, sob sua invocação e mudando o nome de sua propriedade para Santo Antônio das Queimadas. Desde então, estelugar tem mantido sua veneração honrosa a seu ditoso padroeiro que sempre nos tem mui ajudado junto a Deus, Nosso Senhor.

Acontece que algo mui afrontoso ocorreu no derradeiro mez, vigário. Por este motivo, Reverendíssimo, eu escrevo esta epístola para que de alguma maneira possais interceder por nosso padroeiro, pois, agora quem carece de intercessão é Santo Antônio! No derradeiro dia 13 de junho, após a noite defesta em louvor a Antônio de Pádua e Lisboa, como o costume manda e o catecismo da igreja exige, um corpo sem vida foi encontrado no pátio da capella. O defunto tinha por nome João da Costa, branco, um tanto espigado, com pouco mais de 30 annos de idade e que tinha como ocupação o comércio. Era conhecido de todos deste lugar. Fora encontrado com cinco facadas espalhadas pelo ventre, peito e pernas. A acusação do assassínio recaiu sob um preto de nome Francisco Silva, com quem a vítima mui pouco se dava. Ocorre que Francisco Silva não sendo negro forro, é propriedade de Santo Antônio. Como bem sabeis, quando a piedosa D. Isabel Maria Guedes de Brito morreu, deixou como herdeiro de suas terras, suas casas, suas criações e seus escravos de Queimadas o santo português de quem era mui devota. Todo o espólio da grande devota é propriedade de Antônio de Lisboa, sendo administrado pela parochia de Tocano, isto, o reverendo bem sabe.

Ocorre que Francisco Silva, depois de cruelmente matar o homem, fugiu sem deixar vestígios, reverendo. Não houve canto em que não fosse procurado. Não deixou rastro. E como a lei deste Império manda, não se encontrando o cativo responsável pelo crime, quem responde pelo seu acto é seu dono. Deste modo, recaiu a culpa sob Santo Antônio! Homens da comarca daVilla de São João de Água Fria, no final do mez passado, depois do dia de São Pedro, chegaram neste lugar, investigaram o caso e deram voz de prisão ao santo que estava no altar! Pegaram o Menino Deus do divino colo do padroeiro, arrancaram-lhe os lírios e a cruz da mão, retiraram-lhe o esplendor de prata de sua cabeça e o fizeram descer do seu posto. Foi mui grande a confusão. Fiéis senhoras choraram e uma mesmo chegou a desfalecer. Os devotos do santo tentaram impedir que a prisão ocorresse, mas tudo foi inútil. Eu mesmo tentei em vão atalhar, mas sou homem de pouco cabedal e pouca influência. Nada adiantou. Santo Antônio foi levado para julgamento no tribunal do júri da comarca de Água Fria, tendo sido transportado amarrado a um jumento como se um bandido qualquer fosse! Grande infâmia e heresia. O julgamento fora marcado para o dia 20 do mez de julho e o santo teve que esperar trancado na cela da forca até o dia de se apresentar ao tribunal. O julgamento foi feito em dois dias, sendo o padroeiro de Queimadas posto no banco dos réus, interrogado e acusado duramente sem nada alegar em defesa! Como não havia nada a fazer, senão calar, o santo foi tido como réu confesso! Pena capital fora aplicada. Não houve benefício nenhum dado ao santo, a lei foi posta estrictamente, mesmo o réu sendo celestial. Acredito eu que juiz e promotor sejam dois homens de pouca fé, mas apegados a muito latim e leis.

Pois bem, reverendo, o pior vos conto agora. Santo Antônio foi condenado à forca. Dos 7 jurados, 5condenaram o santo se apegando a questões legalistas para condená-lo, sem sequer levar em conta que o fato criminoso não fora cometido por suas próprias mãos e que mui Santo Antônio já fez pelos seus devotos de Queimadas! Antônio foi condenado e todos os seus bens confiscados e postos em hasta pública. Santo Antônio ficou, como dizem o ditado do povo, sem eira nem beira. Por este motivo, é que invoco Vossa Reverendíssima, já que os bens são administrados pela parochia de Tocano. Para que tome as devidas providências para anular a condenação arbitrária eherética de nosso padroeiro. Peço que envie mensagem para a arquidiocese sobre o acontecido, pois creio que nada saiba o reverendíssimo arcebispo da Bahia, pois nem mesmo Vossa Reverendíssima era conhecedor dos factos.  Tudo se deu mui rapidamente e não pude ser mais pressuroso.

Ainda preciso relatar o mais impressionante. Depois de julgado, Santo Antônio fora reconduzido paraa cela da forca para que ali esperasse o dia da execução que fora marcada para dois dias seguintes. Porém, sucedeu algo divino! Ofacto é que o santo sumiu! Santo Antônio despareceu. O carcereiro não o encontrou quando o fora buscar para a execução em praça pública, quando tudo já se encontrava pronto. Santo Antônio é o primeiro santo foragido de que já ouvi dizer. O milagre se repete, reverendo. A justiça dos homens é falha, mas a de Deus é certa!

Nada mais. Peço vossa bênção. Pode, Vossa Reverendíssima, dispor do criado amigo.

 

Antônio de Cerqueira Filho

Prezidente da Irmandade do Santíssimo Sacramento

Chegança

05 de abr de 2017 às 11:05 | em: Astério Moreira

“Senhores donos da casa, o cantadô pede licença pra puxar viola rasa aqui na vossa presença, venho das banda do norte com pirmissão da sentença…” (Desafio do Auto da Catingueira – Elomar F. Melo).

 

Manda o bom costume e a educação esmerada de sertanejo ensinado na velha escola que o forasteiro que chega deve, por cordialidade e respeito, pedir licença, apear e entregar as armas aos donos da casa. Uma mistura de reverência, educação, confiança e precaução para com os hospedeiros.  Trato antigo, mas pouco me importa ser tido como antiquado, portanto, é o que faço agora, senhores!

Tenho por nome Astério Moreira, designação herdada de meu avô; não sendo Cristo, sou filho de uma Maria e de um José; sou uma cria de Tucano, sertão da Bahia (uma mãe que teimo em gostar); tenho por ofício a advocacia e por vício a escrita e, talvez, tenha sido por esta mania que tenham me chamado a tomar parte neste (A Voz do) Campo. Não sei bem o que farei aqui, sei que escrevinharei algumas coisas sobre algumas outras coisas. Meu plantio e minha colheita são incertos, mas minha intenção é verdadeira. Deram-me a (doida) liberdade de escrever como e sobre o que quiser e eu, aproveitando desta louca generosidade, tomo posse deste roçado que me foi oferecido. Agradeço o espaço a Felipe Sales e saúdo todos os meus companheiros colunistas, pedindo a devida autorização para adentrar nesta casa. É com muito gosto que chego aqui.

Perto de seu aniversário que se aproxima, quero saudar a cidade de Araci, o Raso, o berço e o ponto de apoio da Voz do Campo, uma das irmãs de minha cidade, uma cria da Imperial Vila de Sant’Anna dos Tocanos assim como eu! Araci, apesar da proximidade e do embrião histórico, é uma cidade estranhamente distante da minha Tucano, não sei bem os motivos, mas assim percebo. Existe uma maior interligação entre os outros municípios vizinhos e um visível distanciamento com o Raso. Espero que esta ponte que ouso fazer sirva de estreitamento de laços a estas duas cidades que historicamente são tão ligadas.

Tive a oportunidade de conhecer e conviver com boas almas aracienses e, por esta razão, simpatizo muito com esta cidade. Aproveito a oportunidade para reverenciar o município me utilizando da figura de uma das pessoas que, para mim, simbolizam a Vila do Raso: Dona Gasparina Santos de Santana, uma tucano-araciense, avó de uma grande amiga, uma senhora de calmaria alegre, mulher de uma expressão singela e de uma força enorme – quem teve/tem o privilégio de conhecê-la bem sabe do que falo. Melhor representação deste lugar, eu não posso achar (afinal, singeleza forte é um atributo dos mais admiráveis em qualquer cidade interiorana). Na pessoa dela, peço a licença para chegar aqui e a bênção para poder escrevinhar alguns dizeres.

Sendo assim, tendo me apresentado aos senhores, apeio e entrego minhas armas. Licença, meus bons cavalheiros e minhas nobres damas! Licença porque acabo de chegar!

 

Astério Moreira