João Abade: o esquecido; um pouco de Tucano na Guerra de Canudos

19 de ago de 2018 às 10:18 | em: Astério Moreira,Tucano

Foto: Ilustração

Era uma tarde quente, mas não de verão. Nestas terras, a queimação não varia conforme as estações do ano. Ele entrou na cidade no final da tarde, perto da hora da Ave-Maria. Sua entrada foi cercada de mistério, receio e do ranger de portas e janelas a serem fechadas. Entrou pela rua estreita do lado da Casa da Câmara que dava entrada para a vazia e poeirenta praça principal do povoado. Veio com pouca gente, uns poucos jagunços, algumas mulheres com crianças de colo, cinco ou seis velhos e dois jegues já cansados. A um moleque sentado na frente de uma velha casa perguntou “Além de Deus, quem protege o povo daqui?” e como se o menino não entendesse a pergunta, voltou a dizer “Quem é o santo padroeiro?”. “Sant’Ana”, disse o menino e benzeu-se o velho.

Aquele homem de barbas longas, quase na altura do peito, usava uma batina tão maltratada quanto seu próprio rosto escaveirado, uma batina que algum dia já tivera um azulado forte. Trazia sobre o tórax magro um rosário tosco de madeira. Na mão direita, segurava um tronco, um cajado que, segundo seus seguidores, achava água em qualquer terra seca e infértil. Parou em frente à Matriz, ajoelhou-se na grande escadaria da igreja e pediu licença a Deus e a Santa padroeira para ali descansar seus pés cheios de bolha. Depois de benzer-se, com uma autoridade de Messias disse “Aqui ficamos!” e o séquito que o acompanhava baixou as trouxas e as crianças no chão.

Procurou o vigário da paróquia, homem de muito ‘latinório’ e cânones, o peregrino queria permissão para adentrar a Matriz e ali fazer missão. O padre, que já ouvira falar do novo Messias sertanejo e que pouco gostava de concorrência religiosa muito menos em tempo de tão poucas ofertas, deu um riso de lado e de maneira fulminante rasgou a sentença “Não! Jamais! E saiba que o que o senhor faz é pecado, é crime. Falso Cristo!”. Mesmo assim o velho não desanimou, deu as costas e um sorriso plácido.

Com as portas da Matriz fechadas, sobre o adro da igreja iniciou sua pregação. Num tom agitado, próprio dos profetas, o peregrino berrou contra a República e contra os coronéis, “O homem que explora o homem rompe com Deus”. Bradava o cajado contra os céus, com os punhos fechados batia contra o peito, apontava as mais belas casas da praça e dizia “Do pó viestes e ao pó voltareis! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino dos Céus!”. Escandalizadas as famílias, que em suas casas tudo escutavam, fecharam portas e janelas com força e com medo.

De longe, ouviu-se um grito “E o senhor quem é?”, um rapaz de família abastada de nome João rompeu a praça com o fim de tirar satisfação com o beato praguejador. “Sou quem sou, sou quem Vossa senhoria acha que sou” assim disse o profeta. Num deboche, o rapaz disse “Pois, para mim, és um louco”. Os jagunços, fiéis servidores do profeta, desembainharam os facões, ato que foi reprimido de imediato pelo líder religioso. “Pois então, eu digo que sou um louco, um doido peregrino cansado de ver miséria e arrogância. E vosmecê, quem é?”. “João” assim o moço respondeu. Com seu olhar pungente sobre os olhos do rapaz disse “Nome grande! Nome de santo! Vosmecê é a voz que clama no deserto, é aquele que vem antes do Homem e terá a cabeça posta em jogo. Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu serás o último”. Impressionado com os modos e a fala do homem, hipnotizado pela estanha profecia, deixou-se sentar na escadaria da igreja e passou a ouvir o sermão do peregrino.

A noite caiu, acamparam ali mesmo. Comeram o resto de carne seca misturada com farinha e um tijolo de rapadura. Nenhum cristão daquela povoação se apiedou da condição daqueles esqueléticos retirantes, exceto João que trouxera, a contragosto da mãe, Dona Iaiá, dois potes de água. Ninguém na vila ofereceu um pão, um punhado de feijão ou uma bolacha. O beato olhava para a cidade com sua praça vazia como quem condenava um réu à morte. Na escuridão da noite fria, rezou por aquele povo, não chegou a dormir. No terceiro canto do galo, a guarnição da cidade cercou o grupo, por ordem do presidente da câmara e influência do vigário, os peregrinos tinham que partir. “Mas o que fizemos nós?” perguntou o velho beato. “Ordem é ordem, o senhor tem que ir, ‘ajunta’ teu povo e segue teu rumo, essa gente daqui num acredita em rezador, não. Avie!”. O peregrino descalçou as sandálias e segurando as surradas alpercatas nas mãos, batendo uma contra a outra sentenciou em voz alta “Povo triste. Essa terra nunca vai passar disto daqui!”. O pó e a areia seca se desprenderam das chinelas do velho. O capitão da guarda benzeu-se sentindo um arrepio percorrer a espinha de baixo para cima.

Quando o comboio de maltrapilhos já saia. João gritou “Conselheiro! Eu vou contigo!”. Batendo nas costas do rapaz o velho disse “Ao menos tu, ao menos tu. Há um exército a te esperar, tu serás o guardador da santa terra. Não tenhas medo de Salomé”. Sem entender a profecia, João seguiu silencioso ao lado do homem de batina azul. Seguiu alegre, como quem tem certeza de que encontrou o próprio destino. Deixou a viúva mãe chorando na velha casa da praça, enquanto seguia sorrindo os passos do Messias nordestino.

Rumaram para longe, para uma terra onde havia um rio de leite e uma ribanceira de cuscuz.

Já próximo ao cemitério de muros baixos, o Conselheiro parou repentinamente, o povo estancou o passo. Virando-se para João, o velho homem disse “Ficarão as águas em sangue e se apagarão as luzes”.

Então, João soube que não mais veria a terra onde nasceu.

Texto do Advogado e entusiasta da Cultura, Astério Moreira.

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