1928: Lampião estava em Tucano quando foi entrevistado para “O Serrinhense”; foi uma das poucas entrevistas dele

18 de jan de 2017 às 14:07 | em: Cultura,Tucano
Governo da Bahia oferece dinheiro por Lampião | Fonte: Reprodução

Governo da Bahia oferece dinheiro por Lampião | Fonte: Reprodução

O artigo da Folha de São Paulo intitulado “O cangaceiro e o escritor na terra do faz de conta” trás o relato das poucas entrevistas que Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, deu durante os anos do cangaço. O artigo relembra os escritos do grande escritor brasileiro Graciliano Ramos (“Vidas Secas”) sobre Lampião, que em seus textos faz um compêndio das entrevistas dadas pelo cangaceiro, traça um pouco do seu perfil e imagina como seria uma entrevista do memorável escritor com Virgulino. No artigo, os autores dizem que “fora da ficção, não era moleza entrevistar Lampião“.
Frederico Pernambucano Mello, uma autoridade no assunto do cangaço, diz que atualmente são confirmadas apenas duas entrevistas com o cangaceiro-mor. Uma foi em Juazeiro do Norte (Ceará) em 1926 e outra em Tucano, Bahia. Segundo o historiador, Demóstenes Martins e Andrade foi o autor da entrevista, que originalmente foi publicada em “O Serrinhense” e posteriormente em “Diário de Notícias”, de Salvador. Poeta, escritor e jornalista, Demóstenes  estava na cidade de Tucano quando ocorreu a passagem do rei do cangaço e do seu bando pela cidade. A íntegra da entrevista é pouco conhecida, mas o site A Voz do Campo teve acesso a alguns trechos:

A respeito das suas peripécias, Lampião diz: (…) Sou um homem do mato, e de uma feita, acabando-me baleado, passei 6 dias na caatinga, apenas bebendo água. Uma onça chegou bem perto de mim, mas não quis devorar-me”. Sobre as batalhas nas caatingas contra a volante (polícia da época), ele disse: ” Sobre as batalhes, ele disse: “Quando cubro um macaco (soldado) na mira do meu rifle, ele morre porque Deus quer, se Deus não quisesse, eu erraria o alvo”.

Visita de Lampião e seus cagangaceiros em Tucano

Lampião reapareceu na Bahia após algum tempo distante. Desde o ano de 1927 ele estava sendo bastante perseguido pelo Nordeste depois de ter tentado invadir Mossoró (RN), uma grande cidade à época. Ele atravessou o rio São Francisco vindo do Pernambuco e no dia 15 de dezembro de 1928 chegou na vila do Cumbe (atual cidade de Euclides da Cunha). A vista de Lampião ao Cumbe foi tranquila e rápida, segundo os relatos históricos. Depois do Cumbe os cangaceiros seguiram para a cidade de Tucano, onde novamente nada de anormal ocorreu. Ali os bandoleiros das caatingas chamaram a atenção de todos, tratavam todos bem e foram bem acolhidos pelos moradores. A chegada do cangaceiro à cidade já era esperada porque os viajantes haviam informado à população. Eles chegaram no final da tarde em um carro e pararam na Praça Matriz.

Carro que transportou Lampião de Euclides até Pombal | Fonte: Blog do Mandes e Mendes

Carro que transportou Lampião de Euclides até Pombal | Fonte: Blog do Mandes e Mendes

O motorista do carro, conhecido na cidade (José do Padre) tranquilizou a todos e disse: “Não tenham medo; o capitão não fará mal a ninguém“.  A multidão se formou em torno deles e o temido cangaceiro disse: “Estou na Bahia para descansar“. De fato, a perseguição das volantes contra eles vinha sendo grande há algum tempo. O cangaceiro ainda teve tempo tomar tomar cerveja e contar “causos” na Casa Comercial do Sr. Lelis Andrade. Ao final da noite, o jantar deles foi na pensão da D. Júlia. Em seguida, Lampião e Corisco seguiram para a entrevista com o jornalista da terra, Demóstenes Martins. Lá ele recebe a notícia que mandaram buscar reforço policial na cidade de Serrinha, o que apressou a saída do bando do município. Partiram de lá às onze horas da noite, aproximadamente, em destino a Pombal.

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