Conto de terror: “Dois medrosos valentes na Casa do Vaqueiro no Quererá”

17 de ago de 2017 às 10:11 | em: Araci,Felipe Sales,Tucano

Casa dos Vaqueiros reformada em 1962 | Foto: Felippe Moura

Conto escrito por Felipe S. Sales: “Dois medrosos valentes na Casa do Vaqueiro no Quererá”

“De terror, acovardados, os dois jovenzinhos, coitados, não puderam nem gritar, lamentando tanto azar!”, teriam que dormir logo no Quererá. Infelizes, tiveram que dormir na Casa dos Vaqueiros. Logo naquele lugar, que de assombração só se ouvia falar. Vindos de Nova Soure, tinham andado léguas e léguas a cavalo. Desceram serra e subiram serra. Estavam cansados.

A Casa dos Vaqueiros, que fica lá pras bandas do Quererá, sempre foi o mais temido paradeiro de tropeiros desde o Brasil imperial. Antes da casa recente, lá era uma casa quase caída. O local dava apoio à estrada das boiadas. Ligava o litoral aos sertões sem precisar passar por Feira de Santana. Por ela o matuto ia para Juazeiro, Jacobina (…), todo lugar! Lá passava todo tipo de gente, do bem e do mal. Alma boa e alma ruim. Já dizia o ditado popular: “lá (…), matavam um na segunda e guardavam o outro para a terça”. Ninguém queria parar lá. O areão do tabuleiro cansava o cavalo. A subida e a descida da serra surravam o animal e o vaqueiro. Ao final, todo mundo parava lá para pernoitar. Ainda tinha quem se perdia. Que sina!

Raimundinho, filho de índia casada com homem nobre, tinha virado homem naquele dia. Antenor, de família pobre das bandas de Teofilândia, já era homem há alguns anos. Eles apearam o cavalo naquele lugar e logo as carnes se tremeram. Nenhum era valente! Mas eram corajosos. Ao menos um mostrava coragem para o outro. A noite tinha chegado, o vento assobiava e o frio trincava os dedos (…). Era o Quererá.

Foto: Felippe Moura

Num salto dos olhos; daqueles que não se vê, se ouve, eles avistaram uma boiada correndo pelo pasto. O gado corria mais que onça brava. Na casa, ouviram gritos e sussurros. “Alguém deve estar lá”, murmurou Raimundinho. “É tardinha, ainda deve ter vaqueiro com gado no mato”, afirmou Antenor. Entraram na casa. Era um gato. Uma corrente batia na porta. “Deve ser alguém”. Era um gato. Acovardados, sem gritar, cochilaram. Pensando no aniversário que não comemorou, Raimundinho acordou na madrugada. Precisava tomar água e usar o banheiro no mato de fora. Relutou. Sem escolha, saiu ao vento. Logo ouviu um papoco no curral. O cavalo relinchava. Parecia que tinha uma vaquejada no mato. ‘Ê boiada! Só pode”, pensou. Antenor acordou. “Ouviu isso, Antenor?”. “Tô vendo”. O cavalo aquietou. Uma voz gritava dentro da casa. Tinha alguém chorando. Tinha um bebê também. Não contaram conversa, passaram sebo nas canelas. “Vamos ficara aqui na  estrada. A noite passa logo. Amanhã a gente pega tudo e parte daqui do Quererá”.

Foto: Felippe Moura

O dia raiou com o sol na cabeça dos jovenszinhos. Noite agitada. Estavam cansados e perderam a hora. Eles voltaram à Casa dos Vaqueiros. Não tinha ninguém. Mas parecia que lá tinha havido uma festa. No canto de Antenor, até tinha marca de mijo. Os cavalos estavam com rabo e crinas enroladas. O mato estava baixo. Tinha muito mato retorcido. “Esse lugar é assombrado. É muita pantumia. Até os bichos estão assustados”. Desceram mais a serra e chegaram no Araci. Pararam no seu Zezinho armarinho. Ainda seguiriam para Santaluz. “Era a caipora”, contaram como se fossem valentes. Raimundinho, que já gostava de causos, era o mais eufórico. Com peito estufado, o chicote de couro no pulso, e gesticulando muito, gritava: “A caipora deu um carreiro em riba do carro de boi. Subiu no cavalo de Antenor. Peguei meus patuá e botei ela no seu lugar”. Antenor tomava uma pinga: “pra acalmar o susto!”. Ouvindo, seu Vitô sussurrava de lá: “esses devem ter se cagado lá!”.

Contextualização do Quererá

O Quererá faz divisa politica e administrativa entre as cidades de Araci e Tucano. Geograficamente, a região está situada dentro da Bacia Hidrográfica do Tucano, que é marcada pela Depressão Sertaneja. Na região, há áreas planas formadas por processos erosivos comuns das regiões semiáridas Essas vastas superfícies aplainadas encontram-se pontilhadas por inselbergs (afloramento de rocha) e maciços montanhosos isolados, por vezes, desfeitos em um relevo de morros e serras baixas. A sua vegetação característica é a caatinga, sendo ela uma formação vegetal resistente a grandes períodos de estiagem, mais seca, rala, de porte baixo e de solo pedregoso.

Grutas no Quererá | Foto: Felipe Sales

A pré-história do Quererá é um capítulo à parte. A região é fonte de riquezas peleontológicas. Há achados recentes de animais da megafauna pleistocênica (grandes mamíferos), que viveram no Brasil até os últimos 14 mil anos. Na região existem indícios de comunidades indígenas pré-históricas e de contato. Há um grande potencial e histórico oral para ocupações de sociedades tupiguaranis até o início da colonização europeia no Brasil. O próprio topônimo “Quererá”, apesar de pouco explorado lingusticamente, tem provável origem tupi. Os séculos XVII e XVII foram marcados pelas ocupações de grupos indígenas tapuias na região do Querará. Os índios kiriris, que hoje ocupam o norte da Bahia, eram presença constante na dinâmica cultural local. Estes foram os últimos indígenas a ocupar a região do Sisal, especialmente os tabuleiros e as zonas mais altas. Por causa da Estrada das Boiadas, que ligava o litoral aos sertões (Rio Real a Jacobina) e pesava pela região, a história recente do Quererá é marcada pelo contato entre vaqueiros, tropeiros, indígenas e comerciantes na região. É a consequência destas dinâmicas históricas e desses sujeitos culturais que surgiram as culturas atuais.

Arquivo de noites com amigos no Quererá | Foto: Felipe Sales

Sobre o autor

Felipe S. Sales é Arqueólogo,  Preservador Patrimonial e Gestor Ambiental. É funcionário da Rialma Energia Eólica, Sócio-coordenador na CRN-Bio Consultorias Integradas e um dos proprietários do site A Voz do Campo. O conto aqui apresentado é uma história fictícia e foi produzido a pedido de Felippe Moura, para que o mesmo esteja no seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). É inspirado nas histórias de terror contadas por seus avós, Raimundo Moreira e Antenor Sales.

Raimundo e Antenor | Foto: Felipe Sales

Uma homenagem a vô Antenor e In memoriam de vô Raimundo.

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